Tempo, espaço, memória (2022)

Ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é presente.
Bosak pergunta (2012, p. 2):
Será possível marcar o tempo? Marcar como? Formatá-lo talvez. A marca é do que (e em quem) acontece num determinado espaço de tempo. A memória é o que recende de um determinado momento do tempo.

Foi ontem, e é o mesmo que dizermos, foi há mil anos,

o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó,

o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que

só a memória é capaz de mover e aproximar.

(José Saramago)

Para Delgado (2003, p. 9), o tempo "(...) é uma vivência concreta e se apresenta como categoria central da dinâmica da História". É a partir do tempo que construímos nossas leituras de mundo, tendo como referência diferentes temporalidades e acontecimentos que marcaram nossa própria história.

Além do tempo e da memória interessa-nos também a discussão sobre o espaço social como palco das realizações de grupos sociais diferenciados e divergentes.
Passeron (1994) define espaço social em contraposição ao espaço cartesiano (no qual o objeto é localizado através de coordenadas fixas).
De outra parte, o espaço social, envolve a localização dos agentes sociais, num sistema de identidade e volume de acumulação de capital simbólico. Tal acumulação permite distinguir o agente social em seu espaço, suas estratégias de ação e trajetórias sociais.

Na intenção de discutir, problematizar e vivenciar formasdistintas de pensar as questões da memória, tendo como referência o tempo e oespaço social realizamosa “I Oficina Espaço-tempo e memória”, que aconteceu no Colégio de Aplicação daUniversidade Federal do Acre (CAp/UFAC), no dia 07/06/2012.

Participaram osbolsitas Andre Crisnei, Adriana Paiva, Bruna Silva, Janete Cavalcante, JorgeaneOliveira,Maria Kedma Carvalho, além da ex-bolsista Pet AlessandraViana, atualmente professora de Educação Física no CAp. Estiveram tambémconosco nossos meninos João Batista e João Lucas.

Iniciamos o trabalho com uma roda de conversa sobre osobjetivos da oficina e sua importância na formação profissional dos petianos,além de trazer elementos para reflexão de suas trajetórias pré-profissionais.

Comecei a vivência pedindo que se posicionassem no espaço, onde cada um procuraria se colocar da forma maisconfortável possível. Neste momento iniciei a sonorização da vivência colocandomúsicas previamente selecionadas,com intuito de levá-los à um estado de relaxação e proporcionar as condiçõespara uma viagem ao passado, tendo os seguintes elementos norteadores:

1. Infância– brinquedos e brincadeiras;

2. Escolarização: alfabetização, ensino fundamentale médio;
3. Escolha profissional:vestibular e curso de formação inicial.

Além disso, todos esses elementos deveriam trazer a marca daformação cultural, histórica e social de cada participante, ou seja, de suaidentidade.

Relaxação dirigida - com música

Em literatura se diz que a ação “é o conjunto de acontecimentos que acontecem numdeterminado espaço e tempo”, a presença de ação é o primeiroelemento essencial ao texto narrativo.

Após a atividade de relaxação solicitei que todos selecionassem dentre os materiais disponíveis (papel madeira, cola, tesoura, papéis coloridos, fita adesiva, tinta, pincéis, canetinhas, lápis de cor e de cera) e os materiais que eles trouxeram para a oficina (fotos, objetos diversos) para a montagem de um texto com os 3 elementos elencados acima.


Seleção dos materiais

Depois, individualmente todos começaram a produção de seus textos para exposição ao grupo.

Produção textual

Roland Barthes, mestre no estudo da narrativa, afirma que"a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, emtodas as sociedades, começa com a própria história da humanidade. (...) é frutodo genio do narrador ou possui em comum com outras narrativas uma estruturaacessível à análise".

O fio condutor da narrativa era a memória (individual, social) tendo como pano de fundo o tempo (infância, escolarização, formação profissional, perpectivas de futuro profissional) e o espaço social de cada petiano.

Texto narrativo

Em Física se define espaço-tempo (grafado dessa maneira) como uma estrutura que combina as três dimensões do espaço com a dimensão única do tempo.

Pontos no espaço-tempo são chamados de "eventos", um evento é qualquer fenômeno que ocorre no espaço-tempo, pois, os eventos ocorrem em uma posição única e em um instante de tempo único.

Tempo, espaço, memória (9)

Ilustração da curvatura do espaço-tempo

A teoria da relatividade especial de Einstein baseia-se na ideia dos referenciais. Um referencial é simplesmente "onde a pessoa está".

Mas, por que estamos falando de espaço-tempo?

De acordo com ofilósofo Gilles Deleuze (2006):

Construímos o presente sobre a experiência dos fatos passados e estamos,permanentemente, arquitetando o futuro tendo por substrato os alicerces e aexperiência do passado-presente. O tempo seria um permanente presente, que nãotem fim nem começo, que se alonga do infinito anterior à eternidade que seprojeta para o sempre além. O ser e o tempo-espaço...O ser no tempo-espaçounívoco. Tempo e espaço ontologicamente unificados no ser.

representação do infinito

Assim, asanálises que fazemos sobre o passado são influenciadas pela temporalidade. Otempo orienta perspectivas sobre o passado, avaliações sobre o presente eprojeções sobre o futuro. É por isso mesmo que nosso olhar através do tempotraz em si a marca da historicidade.

Texto Janete

O temposocial da História é aquele que, segundo Delgado (2003, p. 12):“(...) considera as ações humanas comoinscritas em uma simultaneidade interna à sociedade”, ena dinâmica da temporalidade, o que é específico é também múltiplo.

Texto Adriana

Buscamos nesta oficinauma perspectiva crítica da noção de identidade, fundamentada no sujeito pensante que estende, segundo Deleuze (2006, p. 272)"(...) ao conceito seus concomitantes subjetivos, a memória, a recognição, a consciência de si".

Texto Kedma

Inspirados no filósofo da diferença, do sentido, dodesejo e da multiplicidade, compreendemos que acabamos por suportar:

(...) opeso da circulação das opiniões dominantes que nos fazem prisioneiros de umhorizonte relativo e imóvel, como se não pudéssemos suportar os movimentos evelocidades infinitas da imanência,de um horizonte absoluto (DELEUZE & GUATTARI, 1992, p. 67-68).

Texto André

O verdadeiro pensamento se pensa em si mesmo, essaespécie de pensamento atinge seu objetivo no próprio ato de pensar (LISPECTOR,1998, p. 81)

Texto Jorgeane

Diz Deleuze (2006, p. 280):
(...) o passado coexiste com o presente que ele foi; o passado se conserva em si, como passado em geral (não cronológico)

Texto Bruna

Prossegue Deleuze (2006, p. 280): "(...) o tempo se desdobra a cada instante em presente e passado, presente que passa e passado que se conserva".

Texto Alessandra

Noentendimento de Delgado (2003, p. 12):

(...) Se o tempo confere singularidade a cada experiência concreta da vidahumana, também a define como vivência da pluralidade, pois em cada movimento dahistória entrecruzam-se tempos múltiplos, que acoplados a experiênciasingular/espacial lhe conferem originalidade e substância.

Texto João

João fez um texto, e para ele aquela oficina era uma brincadeira, mas, também tinha aspectos de seriedade- embora para nós fosse trabalhoe também diversão.

Porisso entendemos que a importância das brincadeiras é que humanizam as crianças epossibilitam-lhes ao seu modo, e ao seu tempo, compreender e realizar, comsentido, sua natureza humana, bem como o fato de pertencerem a uma família e a uma sociedade em determinado tempohistórico e cultural.

A criança que brinca tem o domínio da linguagemsimbólica. A brincadeira ocorre por meio da articulação entre a imaginação e aimitação da realidade anteriormente vivenciada, como veremos no que foi expresso no texto de João, e que resume nossa oficina de espaço, tempo, memória.

Nesse sentido, podemos conferir no texto de João uma síntese do trabalho que realizamos, ele fez um envelope, em que estava escrito:

Para todos os meus queridos amigos do meu coração, eu mando essa carta com muito amor. Flores nascem em várias estações, mas a boa amizade não tem estações. Ela floresce no coração de um bom amigo.

Envelope da carta do João

Dentro do envelope havia uma carta, onde estava escrita a seguinte mensagem com ilustrações:

João Batista Trindade de Albuquerque e meus amigos. A importância de como criar a amizadeé como uma semente que cresce no coração.

  • semente
  • germinação
  • floração
  • frutos
  • amizade

SaraVida (balão): "plante a semente da amizade":
Boneco de neve: "deixe germinar dentro do seu coração";
Alessandra: "e uma hora terá frutos"
Eu: "deixe florescer"
Vovó: "e ficará grande e firme

Carta do João

E assim terminamos mais um trabalho de aprendizagem e colaboração, tendo as crianças como nossos maiores professores. Valeu pela experiência pessoal. Um forte abraço e não esqueçam, vamos retomar estes textos com o feedback deste dia e refazer a apresentação em outros termos, desta vez mais ampliados.

Compreendido na própria essência do todo.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição.Trad. Luiz B. L. Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 2006

Espaço social - conceito utilizado por Jean-Claude Passeron no livro Oraciocínio sociológico (1994). Oespaço social surge em oposição ao espaço cartesiano (no qual é possível encontrarqualquer objeto através de sua localização em coordenadasdadas e fixas). Já no espaço social, a localização que se pretende é a dosagentes sociais; localizá-los envolve um sistema de identidades e de volume daacumulação de capital(is) simbólico(s). Esta mesma acumulação distingue oagente social no espaço social, permitindo assim localizá-lo em relação aoutros agentes sociais, qual o volume de acúmulo de capital realizado porestes, quais suas prováveis estratégias de ação e qual sua trajetória no campo social.






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Author: Clemencia Bogisich Ret

Last Updated: 07/24/2022

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